Teach For Portugal

Autora: Karla da Silva
– Mentora do 2º ano do Programa de Desenvolvimento de Liderança

“Essa foto, junto de colegas de turma da Escola Municipal Adelmar Tavares, é de 1994. Um dos anos mais difíceis da minha vida. Na altura, embora estivesse com esse sorriso lindo no rosto, por dentro era uma criança ansiosa e muito, muito, muito guerreira.

 

Acordava muito cedo para não atrapalhar a rotina das pessoas com as quais eu morava e não gerar mais brigas e incómodos. Estudava com antecedência e ainda ia pela rua com minha mãe respondendo questionários que eu mesma fazia, a fim de gravar datas e acontecimentos (eu criei meu método de estudo e dava super certo!). Uma vez, numa reunião de pais a professora citou que achava lindo eu e minha mãe irmos quase todos os dias pelas ruas a estudar.

Nesta época nasceu a resiliência que muitos admiram em mim hoje.

Eu acabara de me recuperar de uma primeira cirurgia, que 1 ano depois me deixaria paralítica por 1 ano e 8 meses, por erro médico. Sofria de ansiedade pela geral falta de estrutura da minha família naquele momento, que nos levou a ir dormir no chão da casa de uma tia.

Sofria abusos psicológicos de todos os lados: por uma parte, uma pressão pois morava na casa das pessoas e isso me era “lembrado” de forma nada educada a cada tropeço (de criança) meu. Meus pais estavam tentando segurar a barra das crises conjugais e a falta de dinheiro de uma típica família negra de um bairro pobre no Rio de Janeiro. E até sobre isso as pessoas gostavam de comentar comigo, fazendo questão de expor o quanto que eu e meu irmão vínhamos de um lar “falido”.

De um outro lado da família, os adultos abusavam do meu psicológico desde os 6 anos me dizendo que eu comia demais, que era gorda, que eu não iria conseguir arranjar um namorado se continuasse assim e que se eu tivesse sorte seria igual a “fulana” (uma vizinha linda e doce que eu tinha, que era obesa e vivia um relacionamento visivelmente feliz com um outro vizinho).

Essa foto e esta reflexão é para lembrar a todos que o meio familiar e a escola podem ser os primeiros locais onde sofremos abusos na vida.

Não guardo mágoa, até porque hoje entendo que cada pessoa está num nível de evolução e só pode dar aquilo que tem, que aprendeu. Hoje, eu sou uma mulher de sucesso. Mas não foi um caminho fácil até aqui. Tenho consciência que pelo caminho houve pessoas que eu magoei também por estar ferida.

No dia da declaração universal dos direitos da criança pelas Nações Unidas – 20 de Novembro – esta é uma reflexão para os adultos para que não abusem do psicológico de ninguém, mas principalmente das crianças. Respeitem as crianças. Apoiem as crianças das suas famílias, da sua vizinhança, filhos de amigos.

Em resposta a toda a crueldade que eu sofri de abusos psicológicos por parte de adultos, posso fazer diferente. Com a Teach For Portugal, tenho a oportunidade de trabalhar como Mentora com crianças no interior do norte de Portugal, onde aprendo todos os dias com elas e busco – acima de tudo – motivá-las para que elas um dia possam atingir o sucesso.

Então fica aqui essa reflexão: Sua família apresenta uma estrutura de afeto e acolhimento ou de abusos para/com as crianças?

Pense nisso e faça a diferença!

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