Teach For Portugal

Mas o que é o Instituto de Verão?

Instituto de Verão é a formação intensiva e residencial dedicada aos futuros Mentores Teach For Portugal, na qual se conjuga teoria, incluindo sessões sobre equidade na educação e pedagogia centrada no aluno, e a prática, através da Academia de Verão.

Na Academia de Verão, os futuros Mentores que irão acompanhar professores das escolas parceiras nos 2 anos letivos seguintes dinamizam sessões de aprendizagem com alunos dos 10 aos 15 anos. Em Julho e Agosto de 2021, o Instituto de Verão decorreu na Escola de Canelas, em Vila Nova de Gaia, contando com 31 futuros Mentores TFP da 3ª geração e três turmas de alunos presenciais e uma turma online.

Destacamos 5 momentos do Instituto de Verão 2021.

1. Sessão com Alexandre Homem Cristo

“A sessão com o Alexandre Homem Cristo costuma ser uma das mais aguardadas pelos mentores” partilhou a Natali, tutora pedagógica da Teach For Portugal. E no Instituto de Verão 2021 não foi excepção. A sessão “Velhos e novos desafios do sistema educativo português” prometia trazer ao de cima causas e consequências intricadas do contexto educativo em Portugal e propôr um olhar aprofundado sobre quais poderão ser mudanças impactantes a nível sistémico. Alguns dos desafios partilhados abordaram as desigualdades sociais, o envelhecimento da classe docente, o desgaste perante os desafios do dia-a-dia e da carreira, e o que mudou com a pandemia Covid-19.

O Alexandre apresentou 6 ideias chave:
– O sistema educativo português precisa de diversidade, inovação e autonomia.
– O perfil social das famílias é o grande previsor do sucesso escolar. O grande desafio é garantir que a escola consegue ser um elevador social.
– Os professores são o factor mais relevante, dentro da escola, para garantir uma educação de qualidade. A classe sente-se emocionalmente desgastada.
– Os jovens que estão a ser formados para professor não têm um perfil de qualificações elevado — ao contrário de outros países.
– A pandemia ampliou desigualdades sociais e educativas.
– Enquanto organização, a Teach for Portugal tem o potencial para contribuir no enfrentar destes desafios.

Em suma, ultrapassados os desafios de trazer os portugueses para as escolas, agora a questão é como melhorar o sistema e ajudar os alunos a ter um percurso escolar bem sucedido.

O que acharam os participantes sobre a sessão?

“Tendo já alguma consciência de alguns dos problemas do sistema educativo português esta sessão permitiu-me perceber que estes problemas são bastante maiores do que eu imaginava e que há muito por onde começar a mudar o sistema. Senti que nos fez um retrato do que se passa hoje nas nossas escolas e isso é o começo para guiarmos os nossos objetivos.
Foi importante para realçar que os problemas ultrapassam os muros da escola, havendo também muito trabalho a ser feito na comunidade, que deve ser recetora de atenção. Deu-me mais motivação para conhecer ainda melhor a situação atual das nossas escolas. Fez-me refletir sobre o que durante o meu percurso de estudante fui ouvindo dos professores que partilhavam comigo um pouco dos seus sentimentos sobre a educação e que hoje, à luz do que ouvimos nesta sessão ganharam toda uma nova força e significado.”

Sobre o Alexandre Homem Cristo

Licenciado em Ciência Política pela (FCSH-UCP), mestrado em Política Comparada no (ICS-UL) e doutorando no ICS. Desempenhou funções de assessor parlamentar na Assembleia da República (2012-2015) e foi conselheiro no Conselho Nacional de Educação (2013-2015). Escreveu o estudo “Escolas para o Século XXI”, publicado em livro pela Fundação Francisco Manuel dos Santos, em 2013. É cofundador da revista de política educativa 20/20 e cronista do Observador.

2. Os Círculos de Partilha

“É fantástico poder chegar ao final do dia e ter um grupo incrível de pessoas com quem posso partilhar o que aprendi e com quem posso aprender tanto.” diz um participante do Instituto de Verão.

Os círculos de partilha são uma grande componente do desenvolvimento dos mentores. São momentos de criação de relações, celebração em conjunto das pequenas conquistas e partilha de frustrações que permitem aos participantes desafiarem-se, colocando para si mesmos altas expectativas e sentirem-se acolhidos num processo de aprendizagem conjunta.

No Instituto de Verão, os círculos de partilha aconteceram todos os dias, ao final do dia. Em pequenos grupos, os participantes respondiam a questões como “Que a-ha! moments te surgiram a observar as aulas dinamizadas por outros colegas?”, “Que comportamentos tinhas antes do Instituto de Verão, que agora depois desta experiência, pensas que não se voltariam a repetir?” ou ainda “O que aprendeste até agora e o que espero ainda crescer agora que estás a começar a última semana do Instituto de Verão?”.

Esta é uma prática mantida ao longo dos 2 anos do Programa, com uma frequência mensal. Um fator chave do Programa de Desenvolvimento de Liderança é confiar no grupo para superar desafios com criatividade, resiliência e sentido de possibilidade.

3. Roda de Conversa com parceiros

A nossa missão é também a missão de todos os nossos parceiros. Cooperamos para que um dia, em Portugal, todas as crianças e jovens, independentemente do seu contexto socioeconómico, possam alcançar o seu máximo potencial.

Acolhemos os nossos parceiros no Instituto de Verão e damos a conhecer em primeira mão a preparação que os Mentores Teach For Portugal recebem antes de entrarem no terreno. Observam-se aulas, e partilhamos a forma criativa como se superam desafios e se estabelecem relações.

Após a observação das aulas, mentores e parceiros reunem-se numa roda de conversa. Em várias partilhas ouve-se que “O Instituto de Verão é uma experiência absolutamente imersiva porque estamos em regime residencial e num clima de constante aprendizagem e feedback. Recebemos o feedback num dia e é esperado que no dia seguinte o apliquemos.  Mas vai muito além da pedagogia, de estabelecer relação com os alunos e de cumprir os objetivos da aula de forma significativa para eles. Tenho aprendido imenso sobre mim mesmo. Colocamos em prática a Teoria da Liderança: no fundo só começando por nos liderarmos a nós mesmos, somos capazes de liderar com outros para por fim liderar a mudança.”

4. Conhecer a comunidade

“Locally rooted, globally informed” é um dos valores que partilhamos com a rede global Teach For All. Por isso, conhecer a comunidade é um dos pilares em que assenta o Programa da Teach For Portugal. Apenas tendo conhecimento sobre as singularidades do contexto e mobilizando os locais a co-construir soluções adaptadas à realidade do terreno é possível vencer desigualdades sociais por meio da educação. No Instituto de Verão, os futuros Mentores da 3ª geração tiveram oportunidade de escutar a comunidade de Canelas, além dos muros da escola, após aprenderem com a Teresa e o Tiago, mentores da 1ª Geração algumas estratégias sobre como estabelecer esta abordagem inicial.

O Tiago Lobo falou da sua experiência de trabalho de rua no bairro do Cerco no Porto “Ao início somos uma presença estranha. Temos de nos intrusar o mais possível no ambiente até já não sermos notados. Se calhar das primeiras vezes que vou ao bairro não vou abordar ninguém. Fui percebendo que se levasse a bola de basket e estivesse a ‘mandar uns cestos’ era mais fácil abordar casualmente as pessoas e perguntar sobre quais os problemas na comunidade e as razões. É importante estabelecer uma escuta ativa que ouve para além das palavras e que não julga as posições e explicações dos outros. Se for criado um espaço de partilha seguro, podemos compreender as situações não da perspetiva externa ou institucional, mas do ponto de vista dos alunos e famílias.”

5. Criatividade nas aulas: Os truques para a matemática, o desfile de moda, a marcha pelo clima e o rap do Ezequiel

A Mentora Talitha afirmava não ter uma relação fácil com a matemática. Em aluna não era algo que lhe era inato e sempre teve de recorrer a estratégias para decorar fórmulas, anotações e para compreender a lógica. No Instituto de Verão, foi precisamente esse desafio que lhe atribuímos: juntamente com a Yasmin e a Marta, as três estavam encarregues de dinamizar a disciplina de matemática numa das turmas. Movimentos corporais e analogias foram alguns dos truques usados pelas mentoras para explicar os conceitos aos alunos. “Por exemplo, na tabuada o zero é redondo, ocupa espaço, é dono de tudo. Então ao som da música caminhámos confiantes como se fossemos o zero. Assim sabemos que na tabuada, qualquer número vezes zero é zero, porque ele absorve tudo. Já o número um, é tímido e prefere dar a vez aos outros. Se repararmos na forma como escrevemos o número 1 parece uma pessoa de pé com o braço estendido. É como se ele estivesse a estender o braço e a dizer ‘pode passar’. Então, qualquer número vezes um dá o próprio número. Durante um minuto caminhámos como se fossemos o um e fizemos o gesto com o braço para assimilar o truque.” Como já passou pela mesma insegurança na matemática foi natural para a Talitha empatizar com os alunos em circunstâncias idênticas e procurar estratégias para os ajudar. Para ensinar a tabuada do 9 a Mentora Talitha fez um tutorial com o aluno Matvi.

“Foi muito gratificante perceber que os alunos, mesmo com tão pouca idade, têm algo a dizer e a nos ensinar. A turma 3 decidiu que gostava de trabalhar a temática do machismo e relações entre rapazes e raparigas. A Beatriz, Sarah e eu tínhamos como objetivo relacionar o vocabulário do vestuário da disciplina de Inglês com este assunto, sem dar respostas ou as nossas opiniões. À hora da aula levámos os alunos para o pavilhão, montámos uma passerelle e vestimo-nos de forma pouco convencial: eu (André) usei um vestido, a Beatriz uma camisa e uma gravata, a Sarah um boné e t-shirt larga. Claro que eles ficaram muito curiosos, perceberam logo qual era a intenção.

À medida que desfilávamos com música de fundo, os alunos iam indicando e questionando sobre o nome daquela peça em inglês. No fim da aula, discutimos sobre as convenções ‘roupa de menina’ ou ‘roupa de menino’ e como isso pode condicionar as pessoas.” partilhou o André.

Mas a aula da Cátia e da Inês não ficou atrás: a turma queria trabalhar o tema da proteção ambiental e dos animais e decidiram que para isso fariam uma marcha pelo clima.  Pintaram cartazes, definiram lemas a gritar e desfilaram pela Escola de Canelas, chamando outros a juntarem-se-lhes.

 

No último dia de aulas da Academia de Verão, o Ezequiel surpreendeu a sua turma e Mentores com um rap que ele mesmo escreveu para a despedida e homenagear os momentos inesquecíveis vividos. “Demorei 2h a encontrar o beat” diz o aluno orgulhoso do seu empenho. O Ezequiel incluiu todos na letra e cantou as suas rimas num momento em que pôde mostrar a todos o seu talento.

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