Ser professor, hoje, é abraçar um desafio exigente e permanente. Para além de ensinar os conteúdos previstos no currículo, exige-se-lhe que planeie, avalie, diferencie estratégias, gira comportamentos, motive, acompanhe alunos com necessidades diversas e responda, diariamente, a uma realidade educativa cada vez mais complexa, do ponto de vista pedagógico, social e emocional.
Apesar da crescente exigência da profissão, cada professor permanece centrado na sua área disciplinar e, embora partilhe espaços com outros profissionais, raramente dispõe de condições para refletir, planear e experimentar novas abordagens em verdadeira articulação interdisciplinar.
Neste ano letivo, tive a oportunidade de integrar uma experiência pedagógica particularmente enriquecedora, não por ter descoberto uma fórmula inovadora para ensinar, mas por confirmar uma convicção que se foi consolidando ao longo da minha carreira: ensinar não deve ser um exercício isolado, fechado nos limites de uma disciplina ou de um único saber.
Este ano letivo, partilhei com uma mentora da Teach For Portugal, profissional da área da Psicologia, momentos semanais de reflexão e planeamento para as aulas de Português. Em função das características da turma, delineámos estratégias de motivação, concebemos atividades articuladas com as Aprendizagens Essenciais e procurámos responder, de forma mais ajustada, às necessidades dos alunos.
Esta colaboração trouxe-me um olhar complementar à prática pedagógica. Possibilitou a união de uma perspetiva curricular a um foco intencional nas dimensões motivacionais, emocionais e relacionais da aprendizagem. O diálogo entre diferentes saberes e competências permitiu ajustar práticas, antecipar dificuldades e encontrar novas formas de chegar aos alunos.
A intervenção incidiu sobretudo nos alunos mais vulneráveis, quer ao nível das aprendizagens, quer das atitudes em sala de aula, privilegiando uma abordagem discreta, próxima e personalizada. Dessa forma, conseguimos atenuar fragilidades, reforçar a confiança e contribuir para o aumento da autoestima dos alunos.
Ao longo deste trabalho colaborativo, os alunos foram envolvidos no próprio processo de aprendizagem. A criação de acordos pedagógicos para regular comportamentos e promover um clima de sala de aula mais positivo, os instrumentos de auto e heteroavaliação e a instituição da figura do gestor da participação, desempenhada rotativamente pelos alunos, promoveram uma participação mais ativa e consciente.
Mais do que novas estratégias pedagógicas, esta forma de trabalhar transmite aos alunos uma mensagem: a colaboração é importante e faz a diferença. Ao verem professores e outros profissionais a partilhar conhecimentos e a construir soluções em conjunto, os alunos experienciam também um modelo de colaboração que podem transportar para as suas relações e aprendizagens.
A prática pedagógica enriquece quando deixa de depender de um único olhar e passa a integrar diferentes perspetivas, centradas nas necessidades dos alunos. Afinal, aprendemos mais quando partilhamos dúvidas, confrontamos ideias e construímos soluções em equipa. Quando profissionais com formações distintas trabalham com um propósito comum, todos aprendemos e todos crescemos.
Num tempo marcado pela inovação tecnológica e pelas rápidas transformações educativas, talvez a mudança mais significativa não resida apenas nas ferramentas que utilizamos, mas na criação de condições para que os professores deixem de trabalhar isoladamente.
Promover comunidades profissionais de aprendizagem, onde haja espaço para a reflexão, para a partilha de práticas e para a construção coletiva do conhecimento, poderá ser um dos caminhos mais promissores para responder aos desafios da escola do século XXI.