Teach For Portugal

Gonçalo, Joana, Susete e Fernanda entram em escolas de contextos desfavorecidos para virar a forma de ensinar do avesso e conquistar o coração dos alunos. Ensinam empatia, liderança, comunicação. A Teach for Portugal está há quase dois anos no país para pôr travão a uma desigualdade injusta que a pandemia acentuou. Que corta as asas a sonhos e faz crianças carenciadas renderem-se ao insucesso.

Passam poucos minutos das 15 horas, os alunos estão sentados no chão de cimento inclinado do recreio, entre as copas das árvores. Pernas à chinês, rostos cobertos por máscaras. Parece, mas não é hora de intervalo, é uma aula, numa escola de paredes cor-de-rosa, lugar remoto de Marco de Canaveses. Gonçalo Aires e Leonor Semblane levantam-se do tronco de madeira improvisado de banco e dão ordem para o intervalo. Leonor é professora de Inglês e Português na EB 2,3 de Sande e, como ela diz, o Gonçalo caiu-lhe do céu quando se mudou de armas e bagagens desde Vila Meã, Amarante, para morar ali, a cinco minutos a pé da escola.

Desde novembro que Gonçalo lhe “invade” a sala de aula. Partilham-na, todos os dias. Lado a lado. Ele não é professor, na verdade, é licenciado em Relações Internacionais, mas ajuda, e muito. A virar do avesso aulas tradicionais, a pensar fora da caixa. Em saltos e palmas sobre a matéria, a percorrer as carteiras para ajudar os petizes, a ganhar-lhes o coração e a confiança. Como no confinamento, quando fez alguns perderem a vergonha de dizer que não têm telemóvel com câmara para enviarem trabalhos. Quando deu apoio aos que estavam a ficar para trás. Quando os chamava um a um para garantir que todos assistiam à aula virtual. Quando criou uma campanha de angariação de alimentos ou uma festa de Carnaval.

Calças de ganga, camisa azul-escura, no meio daquele recreio, o jovem de 22 anos de baixa estatura quase se confunde entre a pequenada. É mentor da Teach for Portugal. Está a trabalhar a tempo inteiro ali para tentar revolucionar um sistema de ensino que é madrasto para crianças de comunidades pobres, a tentar virar o jogo, amparar-lhes as subidas ao invés das quedas. Virou braço-direito de professores de Inglês e Português dos 5.º e 6.º anos.

Gonçalo Pinto partilha-lhe o nome, tem 11 anos e jura sinceridade quando diz que “as aulas com o Gonçalo são ainda melhores”. O amigo Daniel Madureira segura os óculos azuis enquanto abana com a cabeça, como que a confirmar. “Todas as aulas são diferentes e passam muito depressa. Ele ajudou-me a descobrir coisas sobre mim que não sabia.” Ergue uma folha com três quadrados: “Quem, que objeto e que atitude levarias para uma ilha deserta?”, lê-se. O desafio do mentor aos estudantes, em Português, era para durar dez minutos, levou a aula inteira. O pequeno Daniel adorou. E a professora Leonor, nada habituada a partilhar a sala, não se importa. Em boa hora lhe abriu a porta. “O Gonçalo é uma grande mais-valia, prepara sempre o início ou o fim da aula, faz atividades para motivar os alunos.”

Na EB 2,3 de Sande, as aulas com o mentor Gonçalo são fora da caixa e trabalham o autoconhecimento
(Foto: Leonel de Castro/Global Imagens)

escolaridade. Ele sabia-o, foi isso que o fez mudar a morada. Para os ajudar a acreditar que podem ir longe. “A escola serve para que todos os alunos tenham os mesmos recursos, as mesmas ferramentas”, frisa. Desdobra-se em aulas, tutorias individuais, atividades e está a criar assembleias de turmas, “para dar voz aos alunos, para fazerem propostas de melhoria para a escola, envolvê-los no processo de decisão”.

Foi a diretora do agrupamento, Manuela Ferreira, quem foi bater à porta da Câmara para conseguir financiamento para trazer a Teach for Portugal para a escola. Conseguiu, com fundos comunitários. “Esta comunidade é muito deficitária a nível económico e social. O Gonçalo trouxe um olhar diferente e trabalha com os alunos as competências sociais. Procura-os, conversa com eles.” Vai estar ali dois anos. Manuela bem queria que fosse por mais.

Um engenheiro sonhou, projeto nasceu em 2019

Quando um engenheiro eletrotécnico sonhou, a ONG que já está em 60 países chegou a Portugal. Um voluntariado de dois meses em Angola, a dar aulas de Inglês a miúdos que já nascem com tetos para os sonhos, mudou-lhe a vida e os rumos. Pedro Almeida não conseguiu ficar parado. Esbarrou na Teach for All no Reino Unido e em Espanha. Apaixonou-se. Cartas para a ONG, contactos com o Ministério da Educação, um rebuliço de quatro anos. Valeu a pena. Em 2019, a Teach for Portugal entrou nas escolas. E era tão precisa. “Há muitas desigualdades, as crianças de meios carenciados têm menos oportunidades ao longo da vida.” Em Portugal, o maior preditor de sucesso académico de uma criança é a origem socioeconómica. A probabilidade de um aluno cuja mãe completou o 9.º ano ter sucesso é de 31%, e sobe para 70% se a mãe for licenciada. A taxa de reprovação de crianças de comunidades carenciadas ultrapassa os 50% e é cinco vezes superior à de alunos de contexto social mais favorecido.

A Teach for Portugal quer inverter isso. Como? Recruta recém-licenciados ou jovens profissionais de várias áreas e oferece-lhes um contrato de dois anos para trabalharem numa escola. São remunerados. Graças a parcerias com câmaras, empresas, fundações, como a Belmiro de Azevedo e a Gulbenkian. Quase dois anos depois, já contam com 34 mentores, em 24 escolas de 19 municípios. Apoiam turmas dos 5.º e 6.º anos. Foi estratégia para Portugal por ser ciclo de transição. Pedro não precisa de pensar muito: chega a 3 400 estudantes. “Só no primeiro ano, nos 1 700 alunos que acompanhámos houve melhoria significativa na redução das negativas. Alguns conseguiram a primeira positiva a Matemática. E os que estão no fundo da sala já levantam a mão para participar.” É essa a ideia, dar-lhes confiança, sobretudo numa pandemia que ditou ainda mais desigualdade e deixa feridas.

Nas profundezas de Gondomar

São Pedro da Cova, nas profundezas de Gondomar. Na sala, um aluno por carteira, é o distanciamento ordenado por um vírus. Beatriz Filipa levanta-se, é a delegada de turma. Aos 11 anos, já sabe que quer ser psicóloga. “A professora Joana ajuda-nos nas aulas e fora, até com problemas em casa, é uma das minhas favoritas.” Trata-a por professora, Joana Caldas bem podia ser, é formada em Educação Pré-escolar e Ensino Básico. Ali, é mentora. Os olhos muito azuis e o rosto cândido aos 31 anos não fazem adivinhar um caminho de voluntariado pelo Mundo. Passou por Rabo de Peixe, nos Açores, Brasil, Moçambique, Quénia. Pôs a vida numa mala de viagem para ver projetos que faziam a diferença em lugares distantes. Mal conheceu a Teach for Portugal, quis fazer parte. “O código postal de uma criança não pode determinar o seu percurso de vida.”

Depois do voluntariado pelo Mundo, Joana Caldas juntou-se à professora Ana Frutuoso em Gondomar
(Foto: Leonel de Castro/Global Imagens)

Uma formação intensiva de cinco semanas no verão de 2019 antes de entrar na sala da professora Ana Frutuoso, na EB 2,3 de São Pedro da Cova. Acompanha-a em todas as turmas. Fazem parelha, em Matemática e Ciências. Junto ao quadro, multiplicaram-se os olhos e as cabeças. Joana trouxe uma reviravolta. Antes da matéria, lança perguntas. “Como é que os animais se alimentam?” São os alunos a ir à procura da resposta. Ana Frutuoso vibra. Tem a mente aberta. Veste casaco de cabedal, calça sapatilhas. É “hiperativa”. Já levava mais de 20 anos de ensino, “numa sala de aula quase igual ao que era quando foi aluna” e há muito que queria mudar. A Joana foi o catalisador. “Há coisas que estão cristalizadas e nem damos conta. Estava focada em ter que explicar e a seguir ver se perceberam. A Joana faz ao contrário, traz um olhar novo, faz-me pensar diferente.” E os miúdos empoderam-se, ganham palco, não estão só a ouvir, descobrem as respostas, explicam eles próprios à turma.

O confinamento atravessou-se que nem Diabo, só não foi capaz de travar a mudança. Turmas divididas em dois grupos, aulas virtuais. Arrancavam com dança, para acordar. Até os pais se juntavam. A relação dos miúdos com Joana vive do coração. Contam-lhe se os pais discutem, se dormiram mal, se estão tristes. Vai muito além da matéria, tem a ver com liderança, empatia, comunicação. A escola não começa nem acaba na sala de aula. E num lugar onde há crianças que nunca viram o mar, onde a gravidez na adolescência ainda é comum e muitos encarregados de educação não vão sequer às reuniões, Joana vai criar uma Academia Digital para Pais, projeto da EDP, “para lhes ensinar competências tecnológicas, para poderem ajudar os filhos”. Quer levar a comunidade para dentro da escola, “porque o contexto é uma parte essencial da vida do aluno”.

Jovens promissores que fazem a diferença

Foi exatamente nisso que a nova-iorquina Wendy Kopp reparou quando chegou à universidade há mais de três décadas. “Percebi que o contexto socioeconómico ou o lugar onde as crianças cresciam determinava a sua vida.” Corria o ano de 1989 quando fundou a Teach for America, nos Estado Unidos. Desafiou os jovens líderes mais promissores do país a ir ensinar para escolas de meios desfavorecidos. Um fenómeno que acabou a reproduzir-se pelo Mundo e levar à criação da Teach for All, em 2007. Vamos a números: mais de 15 mil mentores, um milhão de alunos. Num rasto difícil de apagar. Ao fim de dois anos em sala de aula, mais de 70% dos mentores continuam a trabalhar na área da educação, como professores, políticos, empreendedores sociais.

Há mais de 30 anos, Wendy Kopp fundou a Teach for America, nos EUA, a ONG que já chegou a Portugal
(Foto: DR)

A pandemia só veio destapar ainda mais carências. Obrigou os mentores de Marrocos a criarem grupos de WhatsApp com as mães dos alunos para enviar a matéria, os do Reino Unido a criar uma escola digital com todo o currículo britânico, os portugueses a lançar tutorias para lá das aulas. Foi reconstruir as raízes de um sistema. Susete Vaz Pedro sabe bem disso. No último confinamento, inventou recreios virtuais. Convidava youtubers para responderem às perguntas dos miúdos. Deu a mão a pais, ajudou a angariar equipamento tecnológico, a cobrir necessidades alimentares.

As pernas a tremelicar de nervos quando chegou à Escola Básica de Perafita, em Matosinhos, em setembro, já faziam prever o amor que carregava. É uma escola TEIP – Territórios Educativos de Intervenção Prioritária. Para quem é formada em Educação Física, a escola é lugar óbvio. Só que nunca tinha conseguido aí emprego. Juntou-se aos docentes de Português e Inglês. “Foquei-me na relação com os alunos. Os professores em sala têm tanta coisa para gerir que vou equilibrando. E conseguir que o aluno que não participava passe a participar, mesmo que erre, é a maior prova deste trabalho”, salienta Susete.

Um desafio que a Teach for Portugal não deixa ao acaso. Os mentores têm formação no arranque e a cada quinzena. Planificação de aulas, conteúdos, atividades, trabalhar em parceria. São preparados ao milímetro. Há escolas com um mentor, outras com dois, outras com quatro. E para lá da sala de aula, tantas sementes lançadas. “Desde projetos de inclusão da comunidade cigana a um podcast em que os alunos entrevistam protagonistas da terra”, atira Maria Azevedo. É diretora de formação na ONG, juntou-se a Pedro Almeida em 2015 para cofundar a Teach for Portugal depois de ter dado aulas na Índia. “Via crianças tão novas e tão autónomas, tomavam banho sozinhas, lavavam a sua roupa e, mesmo com toda aquela capacidade de cuidar de si, ninguém acreditava no seu potencial.” Maria acredita. Quer mudar vidas e pôr todos os alunos a olhar o céu.

Oeiras: a estreia a sul

Num trabalho ainda muito centrado a norte, abriram-se as portas do sul do país neste ano letivo, em Oeiras. Cabelos curtos, olhos claros, sotaque carioca, 29 anos. Fernanda Souza mudou-se do Brasil para Portugal para fazer mestrado na área da Educação, depois de nove meses a correr o Mundo. Sozinha. Tornou-se instrutora de ioga e perdeu-se de amores pela arte de ensinar. Ao cabo de dois meses cá, desencantou a Teach for Portugal no LinkedIn. O recrutamento é exigente, para selecionar bons líderes. Fernanda entrou.

Escola Aquilino Ribeiro, Porto Salvo. Ali, os alunos suportam mochilas de livros e outras tão mais pesadas. Há miúdos do Bairro dos Navegadores, “um dos últimos a ser construído no concelho para pessoas que moravam em barracas e que carrega um grande estigma”. E muitas crianças imigrantes. Cabo Verde, Guiné-Bissau, Angola, Brasil, Bangladesh. “A escola tem grande diversidade, é um desafio.” Nanda, como todos a tratam, descomplica. Acompanha sete turmas, quatro disciplinas: História e Geografia, Português, Inglês, Matemática. Um furacão de energia. Nas aulas de Inglês, criou intercâmbios com alunos de outros países. Em videochamadas, as turmas já falaram com crianças da Coreia do Sul, Áustria, Polónia ou Mongólia. Fora da sala, criou aulas de ioga e um grupo de teatro há muito sonhado por um aluno do 6.º ano. “Foi ele que desenhou o plano. Eu só facilitei.” É o espicaçar da autonomia, do pensamento crítico, da autoconfiança. Ajudá-los a ver o próprio potencial.

A carioca Fernanda Souza mudou-se para Portugal para estudar e acabou por tornar-se mentora em Oeiras
(Foto: André Luís Alves/Global Imagens)

É a história de uma aluna que com as tutorias de Inglês perdeu a vergonha de levantar a mão na aula ou a de uma criança imigrante a braços com o Português que recuperou das negativas. Nanda não assume os créditos, não é só o trabalho dela a deixar marca, mas esse ajuda nem que seja na “gestão emocional, de conflitos, raiva”. Até porque a matéria é o professor que a sabe, o mentor só lhe soma novas visões pedagógicas. De quando em vez, Heloísa Toledo vai assistir às aulas. Acompanha mentores no terreno. “Para avaliarmos o que pode ser melhorado, no modelo de cooperação com os professores, darmos feedback, ajudarmos nas dificuldades.” E monitorizar o impacto.

Mudar o modelo de escola é urgente

Este é um trabalho adiado, mas inevitável. O da mudança da escola. É Pedro Patacho, vereador de Educação em Oeiras, quem o diz. A reforma do sistema educativo do final da década de 1980, era Cavaco Silva primeiro-ministro, ainda orienta as escolas mais de 30 anos depois. “Mas hoje as crianças são outras, têm outras necessidades e ambições, acesso à Internet, são informadas, críticas.” A metamorfose é urgente. Foi por isso que quis a Teach for Portugal em Oeiras. Quer ter os melhores alunos do país, “os que não ficam retidos, não ficam para trás”, independentemente de onde vêm. É sonhador, foi docente, o coração sobe-lhe à boca quando a escola enche a conversa.

Os professores “podem fazer a diferença na vida dos alunos se tiverem apoio” e “é importante que o façam com a comunidade, que a escola não se feche sobre si própria”. A Teach for Portugal faz isso, com “a entrada de um olhar fresco, novas ideias”. A Câmara de Oeiras financia com 12 mil euros por ano. E este é o piloto de um modelo que o vereador quer estender depois da prova dos nove. Já é capaz de ver impacto. “Os professores têm muitas turmas e muito trabalho burocrático-administrativo. O peso que pende sobre as suas costas é tão grande que os afasta do que devia ser a preocupação dominante, a inovação pedagógica. Este projeto traz um par pedagógico, que está lá todos os dias a lembrá-lo, ‘vamos fazer coisas diferentes, vamos inovar’.”

Susete Vaz Pedro criou recreios virtuais com youtubers no confinamento para os alunos de Perafita
(Foto: DR)

E mais, leva a escola até à família e à comunidade, que é “fácil de dizer, muito difícil de fazer”. Há relatos em Oeiras de idas dos mentores a casa dos alunos, “e isso cria uma atmosfera de proximidade transformadora na vida das famílias e na forma como olham a educação. É o caminho certo”. Talvez por isso os mentores apontem a educação como bússola do futuro na sua vida. Fernanda Souza tem mais certezas do que dúvidas. “A educação é o meu caminho. É onde quero e onde faz sentido estar.” Como é o caminho de Gonçalo Aires, Joana Caldas e Susete Vaz Pedro, que agarram em machados invisíveis para demolir as paredes e os tetos dos sonhos de crianças carenciadas, que não podem ser condenadas ao insucesso.